A fotógrafa que nunca quis ser descoberta
Ela trabalhou 40 anos como babá. Fotografou compulsivamente. Guardou 150 mil negativos em caixas. Morreu sozinha. Dois anos depois, um cara descobriu — por acaso — uma das maiores fotógrafas do século
Quem foi Vivian Maier?
Seu gosto pelo anonimato aparece também em sua vida: são poucas as informações sobre sua infância e adolescência. Nascida em 1926, nos EUA, teve uma breve passagem por Paris e estabelece-se na volta em Nova York , graças ao trabalho como babá.
Em seus dias de folga Vivian Maier flanava pela cidade com sua Rolleiflex, fazendo fotografias que desafiam a lógica: em uma América sexista e preconceituosa da metade do século passado, uma mulher sozinha carregando uma câmera deveria causar estranheza, sensação oposta da proximidade quase invisível que se vê em suas fotos.
Eu creio que 40 anos trabalhando como babá aperfeiçoaram a capacidade de desaparecer no meio da multidão, essa é a sensação que tenho quando observo o livro de fotos de Vivian Maier: parece que seus fotografados são conhecidos de longa data, há uma confiança rara nos olhos de seus personagens, quase uma serenidade.
A sensacão que fica é que as fotos foram feitas segundos antes de seus retratados começarem a contar seus mais íntimos segredos. Estamos na época de ouro da fotografia e emoções como alegria, raiva, companheirismo, indignação, dor e desalento são temas para o trabalho de vários gigantes da fotografia, mas Vivian Maier dá um passo além, ocupa um lugar só seu.
A Descoberta do Acervo






Não há como falar de Vivian Maier sem mencionar o sortudo John Maloof, sem ele não saberíamos que essa tímida e quieta babá era de fato uma grande fotógrafa de rua.
John arrematou em um leilão em 2007, por menos de 400 dólares, uma mala imensa repleta com 30 mil negativos e 1600 rolos de filmes não revelados da então falecida fotógrafa.
Vivian não respirou sequer um segundo de fama, tudo foi construído após a descoberta de John, que também colheu todos os louros, realizou diversas exposições, livros e até um documentário (2013): “Finding Vivian Maier”.
O link acima leva ao documentário integral, mas veja o trailer aqui embaixo, recomendadíssimo:
Anonimato até o fim da vida
Maier teve problemas financeiros na velhice e acabou não pagando o depósito onde mantinha seus pertences, que acabaram indo a leilão.
O curioso é que John não comprou tudo, parte foi comprada por outros dois colecionadores. Um deles tentou divulgar e lucrar com as fotografias de Vivian Maier no ano seguinte, mas não teve repercussão.
Dois anos depois da descoberta, John adicionou as fotos no Flickr e elas tornaram-se virais. Vivian Maier, no entanto, não estava mais entre nós: morreu num asilo, subsidiada por alguns dois quais tomou conta quando criança.






Após a descoberta do talento de Vivian, muito se buscou sobre ela, mas ninguém a quem ela tivesse mostrado suas fotos foi localizado. Sua senhoria disse que ela pediu que fosse colocada uma forte fechadura no sótão e que ninguém entrasse lá.
Descobriu-se, então, que lá era o esconderijo da fotógrafa, com suas fotos e seu laboratório improvisado em um banheiro.
Vivian Maier era reclusa, tímida, mas há uma variedade de autorretratos em que abusa de vidraças e espelhos para inserir a si mesma em seus registros. Aliás, essa é também uma de suas marcas: utilizar-se dos reflexos, sejam em vidro ou em água, para adicionar grafismo e simetria.
Com fotos que primam pela espontaneidade, criatividade e singeleza, Vivian registrou, em grande parte de sua vida, o lado humano do povo americano, abusando da composição e da simetria.
Separei uma preciosidade para você, leitor OBSCURA, o livro de fotos da Vivian Maier, O clássico instantâneo original que incendiou o mundo. O primeiro livro a apresentar o fenômeno que é a história de vida e a obra de Vivian Maier.
Apresentado aqui pela primeira vez impresso, Vivian Maier: Street Photographer reúne o melhor do seu incrível e inédito conjunto de obras.
Conclusão
Imagine comigo: quantas Vivian Maier não estão escondidas em caixas perdidas por ai? Apaixonado por fotografia de rua como eu sou, eu acredito que o trabalho como babá afiou aquilo de que mais se precisa nesse segmento da fotografia: invisibilidade.
Estando por trás dos acontecimentos, tendo a chance de observar em silêncio o que se passava nas famílias e sendo paga para “olhar” crianças deu a Vivian Maier o laboratório perfeito para treinar suas emoções antes mesmo de pegar a câmera.
Sem educação formal, a não ser aquela que se ganha ao se deixar levar pela paixão, Vivian teve a chance de aprender por uma forma que vem sendo pressionada e criticada nos dias de hoje: errando.
Usou tudo o que poderia ser empecilho para o desenvolvimento do seu olhar, Maier fez da exceção a regra, por isso seu olhar é tão diferente e, ao mesmo tempo, tão necessário aos dias de hoje.
Confira as fotografias magistrais de Vivian Maier no site oficial da fotógrafa, clicando aqui
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