A Síndrome de Jaguar: O Dia em que a Profoto Desistiu da Luz
Quando a marca que representa o “Padrão Ouro” da iluminação decide que a realidade é opcional, ela não está apenas errando o marketing; ela está declarando a própria obsolescência.
O mundo assistiu atônito ao suicídio ritualístico da Jaguar em 2025. Uma marca construída sobre o ronco de motores a combustão, o cheiro de couro inglês e uma herança de performance bruta decidiu, da noite para o dia, que era uma grife de moda progressista e abstrata. Eles tiraram o carro do comercial. Eles tiraram o legado da frente. Eles decidiram que o “conceito” valia mais que o produto.
Resultado: colapso de 97,5% nas vendas, apenas 49 unidades vendidas em 2025.
Hoje, a fotografia vive o seu “momento Jaguar”.
A Profoto, carinhosamente (ou não) chamada de “Apple da Iluminação”, foi pega no flagra. A marca que cobra 4 mil dólares por um flash sob a promessa de “domínio absoluto da física da luz” usou Inteligência Artificial para promover seus produtos no Instagram.
O resultado? Uma revolta global que nem o pedido de desculpas mais polido do mundo vai conseguir conter. E o motivo não é apenas o uso da IA: é a mensagem subliminar que a Profoto acabou de enviar para todos nós.
O Valor do Real em um Mundo de Pixels Baratos
O que você compra quando adquire um Profoto B10 ou um gerador D2? Não é apenas um capacitor e uma lâmpada de xenônio. Você compra a consistência da cor, a duração do pulso e a física da luz controlada. Você compra a garantia de que a realidade que você captura será moldada pela sua intenção técnica.
“The Light Shaping Company”, ou a Empresa de Modelagem de Luz, é o lema da Profoto…
Ao usar IA para gerar imagens que deveriam ser o portfólio de suas ferramentas, a Profoto cometeu um pecado capital: ela admitiu que a luz física — o único produto que ela vende — é perfeitamente substituível por um algoritmo de 20 dólares por mês.
É o paradoxo final: se a própria Profoto sugere que a “estética Profoto” pode ser emulada por um prompt, por que diabos o fotógrafo comercial ainda deveria investir o preço de um carro popular em seu ecossistema?
A Desconexão das Elites de Marketing
O erro da Profoto e da Jaguar nasce do mesmo útero: a desconexão total entre as equipes de marketing “moderninhas” e o usuário que está no campo, suando a camisa para entregar um trabalho comercial.
Para o Social Media que postou a imagem, a IA é apenas uma “ferramenta trend”. Para o fotógrafo que passou 20 anos estudando a Lei do Quadrado Inverso e o comportamento das sombras, a IA usada pela marca de luxo é um tapa na cara. É a marca dizendo:
“Nós não precisamos mais de vocês, e honestamente, nem vocês precisam tanto assim da nossa luz.”
Quando o luxo tenta ser “cool” demais, ele esquece que sua base de sustentação é a exclusividade técnica. No momento em que a Profoto flerta com o sintético, ela se despe da sua autoridade. Ela deixa de ser uma ferramenta de precisão e passa a ser apenas mais uma empresa de tecnologia perdida na neblina do Vale do Silício.
O Fotógrafo-Redação e a Resistência Orgânica
Temos falado aqui na Obscura sobre o fim dos empregos fixos (o caso Washington Post) e sobre a explosão de novas ferramentas (Canon e Viltrox). Mas o caso Profoto toca em algo mais profundo: a integridade da imagem.
Se as marcas que deveriam proteger a fotografia real estão jogando a toalha, o valor do “Orgânico” vai subir vertiginosamente. Assim como o disco de vinil sobreviveu ao MP3 e o relógio mecânico sobreviveu ao quartzo, a fotografia feita com luz física está se tornando um ato de resistência de luxo.
O problema é que a Profoto, em vez de se posicionar como a guardiã dessa resistência, preferiu tentar sentar na mesa dos jovens que geram imagens enquanto almoçam um poke. Ela tentou ser a Jaguar. Ela tentou ser moderna e acabou sendo irrelevante.
O Veredito: Onde a Confiança Vai Morar?
O pedido de desculpas da Profoto no Instagram diz que eles “estão aprendendo”. Mas o mercado de luxo não perdoa aprendizes. Ele perdoa erros técnicos, mas raramente perdoa erros de identidade.
Abaixo, o pedido de desculpas da marca (com toda pinta de ter sido escrito por IA):
ATUALIZAÇÃO: Pelo menos conseguimos chamar sua atenção para a IA 😉 Nossas habilidades de comunicação falharam desta vez - obrigado por apontar o erro, nos responsabilizar e participar da conversa!
Levamos seu trabalho muito a sério. Se você assistiu ao vídeo e acompanhou a conversa que temos promovido no último ano, sabe que não se trata de substituir a fotografia e a criação de imagens.
Trata-se de acompanhar as mudanças tecnológicas, e a IA faz parte da realidade de todos hoje em dia. Acreditamos firmemente que a iluminação, as pessoas e os estúdios por trás dela são o coração indispensável de toda criação de imagens. Quando você combina suas habilidades de iluminação com fundos gerados por IA, isso é uma das expressões do seu poder criativo como artista. Não estamos dizendo para você substituir nada, nem que a fotografia está morta; é apenas mais uma ferramenta em seu arsenal criativo.
Para nós, fotógrafos independentes, o recado é claro: não confie cegamente nas marcas. Elas não são suas amigas. Elas são empresas tentando sobreviver ao tsunami da IA, e se elas tiverem que sacrificar a relevância da luz real para parecerem “tecnológicas” para os acionistas, elas o farão.
Sua única defesa? O seu olhar. Sua capacidade de criar o que o algoritmo ainda não consegue: o erro humano, a sutileza da luz que rebate na pele real e a intenção que nasce de uma mente, não de um servidor.
A Profoto pode ter desistido da luz por um momento. Nós não podemos nos dar a esse luxo.
Resumo da Ópera (Para você não se perder na semana):
Washington Post: O fim do staff é o início da sua era como “Fotógrafo-Redação”. A independência não é mais opção, é sobrevivência.
Canon & Viltrox: O duelo entre o luxo tecnológico (14mm f/1.4) e a eficiência agressiva (Viltrox L-Mount). O equipamento está melhor, mas o jogo está mais caro.
Caso Profoto: O marketing de luxo está em crise. A defesa da “Luz Real” agora é responsabilidade nossa, não das fabricantes.
O que você acha?
“Você prefere ser o profissional que defende a luz real como um ato de fé, ou já aceitou que, no futuro, seremos todos apenas curadores de imagens sintéticas aprovadas por marcas que desistiram da física?”






