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Capítulo 2: A Invenção do Foco e o Grande Desvio do Desfoque

De Girolamo Cardano à farsa do desfoque: como o Renascimento enfiou duas máquinas dentro da câmera escura para inventar o foco e dominar a nitidez.

Uma máquina dentro da máquina. Ou melhor: duas máquinas dentro da máquina.

No capítulo anterior da Academia Obscura nós deixamos o homem do Renascimento diante de uma encruzilhada física asfixiante. A velha câmera escura baseada no mero furo estenopeico de Aristóteles cobrava um preço alto demais: ou ela entregava uma imagem nítida (com um furo microscópico), mas tão escura que era quase invisível; ou entregava luz (com um furo maior), sacrificando toda a nitidez em um borrão sem forma.


Leia e assista à primeira parte aqui:


A luz e a nitidez simplesmente não conviviam. E em um século XVI violento, onde o mundo se expandia com as Grandes Navegações, a imprensa de Gutenberg, a Reforma de Lutero e a quebra do cosmos por Copérnico, a civilização tinha pressa. Era preciso registrar a realidade com velocidade e exatidão geométrica. A tecnologia que enxergava o mundo não podia ficar para trás.

A câmera precisava evoluir, exatamente como ocorre hoje


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lente biconvexa convergindo os raops num ponto, a distância focal
Distância Focal é o afastamento, em milímetros, do eixo da lente até o ponto onde a luz converge. É nesse ponto onde é colocado o sensor sua câmera ou celular

O Estalo de Cardano: O Foco Ganha Vida

Em 1550, a resposta para esse impasse de séculos veio de uma das mentes mais caóticas e brilhantes do Renascimento: Girolamo Cardano. Médico, matemático, astrônomo e jogador inveterado de dados, Cardano teve a audácia de arrancar o pequeno furo da câmera escura e enfiar ali uma lente de vidro biconvexa.

Descubra a genialidade de Cardano no post abaixo da Academia Obscura


Essa solução, sofisticadamente simples, resolveu duas crises estruturais de uma só vez:

  • A Injeção de Claridade: Em uma Europa onde a luz solar escasseia na metade do ano e as tardes morrem cedo — e em uma época sem tratamentos oftalmológicos avançados —, os artistas precisavam de luz. A lente permitia um orifício com diâmetro muitas vezes maior que o furo original, inundando a câmera de luz maciça.

  • A Dobra da Luz: A física da lente biconvexa forçava os raios luminosos a se dobrarem, convergindo-os em um ponto milimetricamente determinado no espaço.

o que é distância focal? Ume lente de 24mm terá 2,4 centímetros de distância focal
Uma lente de 24mm tem, do sensor até o eixo da lente, 2,4 cm. Por isso as lentes longas são fisicamente maiores

A distância física entre o centro dessa lente e o ponto exato onde esses raios se cruzam é o que a ciência batizou de distância focal. É exatamente essa milimetragem (20mm, 35mm, 50mm, 105mm, 200mm) que você vê gravada no seu equipamento digital ou nas especificações do seu celular hoje.

Repare: celulares cada vez mais finos exigem distâncias focais cada vez menores, a espessura do celular é o maior empecilho para lentes longas, o celular precisaria crescer em volume e isso reduziria a portabilidade.

É o mesmo tipo de preconceito que usuários de 35mm, as câmeras comuns de filme, sofreram no passado e agora, orgulhosamente, repetem com os usuários de smartphones.

Não aprenderam nada em 200 anos de Fotografia.

Quando você coloca o papel — ou o sensor da sua câmera ou celular — exatamente nesse ponto de convergência, o milagre acontece. Pela primeira vez na história da criatividade humana, surge o Foco.

Quando você gira o anel de foco na sua lente, faz esse plano percorrer toda a imagem, selecionando onde quer o início da atenção do observador da foto.

Smartphone camera design basics: Optics and form factor | Glass Imaging
A espessura do seu celular é, em média, de 6mm, é o espaço exato para lentes e sensores. Para que a distância focal crescesse, sem alterar a espessura do aparelho, usaram uma solução antiga: deitar a lente

O Dilema dos Pintores e a Barreira de Barbaro

Os retratistas entraram em polvorosa. Finalmente, podiam isolar o sujeito principal contra um fundo difuso. Mas os pintores de paisagens, arquitetura e marinhas odiaram o invento.

O grande problema da lente é que ela só produz um plano de foco por vez, uma fatia linear mais fina do que uma folha de papel. O que estava antes ou depois desse plano se dissolvia. Para pintar um vale inteiro, o artista teria que carregar duas câmeras nas costas: uma tradicional com furo e outra com lente?

A engrenagem final para esse quebra-cabeça foi esculpida pelo nobre veneziano Daniele Barbaro, em 1568. Barbaro introduziu a terceira máquina do sistema: o diafragma (do grego barreira).

Um conjunto de lâminas justapostas que dava ao criador o poder de controlar o diâmetro da abertura por onde a luz passava. O diafragma não eliminou o problema do foco único; ele deu ao fotógrafo a capacidade de escolher o quanto desse problema ele estava disposto a aceitar.

Guarde isso: poder de escolha, essa é a vantagem do diafragma

Estreitar o furo devolvia a nitidez para a paisagem inteira; abrir o furo isolava cirurgicamente o plano de interesse.

Diafragma, os olhos da câmera

O Grande Desvio: O Diafragma Nunca Controlou o Desfoque

Nunca controlou, não controla e jamais controlará.

Aqui está o golpe que a história da fotografia precisa te dar, sem anestesia. Existe um desvio de função absurdo sendo replicado em milhares de tutoriais e dicas gratuitas na internet hoje: a mentira de que o diafragma controla o desfoque.

Entenda de uma vez por todas: O diafragma nunca controlou o desfoque.

O desfoque sempre existiu na câmera escura. Ele é o padrão natural, a textura do caos, a ausência de fogo e de atenção. A introdução da lente e do diafragma veio para controlar a nitidez e gerenciar o interesse do seu clique.

Quem fotografa privilegiando desfoque jamais precisou de uam lente e, certamente, está errando o foco

Quando você olha para a Mona Lisa, ou para os retratos fuzilantes de Winston Churchill feitos por Yousuf Karsh, você não olha para o desfoque do fundo. O desfoque é apenas a consequência de não-foco. O diafragma serve para você apontar o dedo com precisão cirúrgica e dizer ao espectador: “Isto, e nada além disto, é o que importa nesta fração de segundo”.

Elogiar uma foto ou uma lente pelo seu desfoque (bokeh) é a prova inequívoca de que o sujeito não entendeu a jornada da luz.

É o pior da pletora de erros que inunda o ensino da fotografia atualmente, o mais grave de todos, pois tira o fotógrafo da correta compreensão da luz, nos próximos capítulos revelarei a quantidade de informação guardada no conceito que regula o diafragma e nenhuma deles toca no desfoque.

Sua fotografia reside abaixo da nitidez e antes do desfoque.

O Próximo Código: Como Quantificar a Escolha?

Câmara Escura (Camera Obscura). História da Fotografia | by Patrícia Jones  | Medium
Uma caixa estanque à luz, uma lente, um diafragma, um visor….estamos chegando lá!

Com a caixa estanque, a lente biconvexa e o diafragma, a máquina estava perfeita. Ela resolveu o problema daquele século.

Mas imagine o caos no auge do pensamento racional do Renascimento, se o fotógrafo ou pintor tivesse que gritar para o seu assistente: “Abre o furo um tantinho” ou “Fecha só um tiquinho”. Era impossível transmitir conhecimento ou criar um mercado de lentes sem um código universal.

Quanto é esse “tantinho"?

Como a humanidade conseguiu transformar a variação geométrica dessas lâminas em um número absoluto, que funciona com o mesmo rigor matemático na sua Nikon, Canon, Sony ou no celular que está no seu bolso?

Esse segredo cabalístico — que guarda em si a lei mais bonita de toda a iluminação — eu vou revelar para você na próxima aula.

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