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O Instagram Não É Uma Plataforma de Fotografia
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O Instagram Não É Uma Plataforma de Fotografia

Ele é uma plataforma de atenção que tolera fotografia — e essa diferença vai custar caro para quem não entender

Este post nasceu de uma conversa. Rafael Lopes, da Camera Clara — newsletter de fotografia em inglês com base nos EUA — e eu gravamos o primeiro episódio de uma série de podcasts bilíngues onde usamos a IA como ponto de partida para debater fotografia de verdade. Nosso convidado fixo se chama Cláudio. Ele é virtual, não cobra cachê, e às vezes acerta. Às vezes a gente discorda. É exatamente aí que a conversa fica interessante.

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Existe uma pergunta que o Cláudio respondeu corretamente — tecnicamente, estruturalmente, com todos os bullet points no lugar — e que mesmo assim estava errada.

A pergunta era simples: o Instagram é bom para fotógrafos mostrarem seu trabalho?

A resposta foi o que você esperaria. Plataforma visual, algoritmo favorece consistência, use hashtags estrategicamente, não esqueça de complementar com um site, correto, adequado.

E Inútil. Porque a pergunta certa não é essa. A pergunta certa é:

o Instagram foi feito para você, fotógrafo, ou você foi feito para o Instagram?


A armadilha tem uma embalagem bonita

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O Rafa colocou o dedo na ferida logo no começo da nossa conversa. Ele passou quatro horas produzindo cada um de três Reels sobre fotografia analógica — revelação, escaneamento, conversão de negativo para positivo. Tutorial denso, bem executado, conteúdo que de fato ensina alguma coisa. Resultado: cerca de 3 mil visualizações por vídeo.

Dias depois, na rua, fez um vídeo de 12 segundos mostrando uma impressora 3D que estava usando. Levou um minuto para fazer. Deu o mesmo número.

O Instagram tratou as duas coisas como equivalentes.

Aqui está o que isso significa na prática: a plataforma não está medindo valor. Está medindo retenção. E um vídeo de 12 segundos tem uma vantagem matemática sobre um tutorial de dois minutos: é mais fácil de assistir até o final. Engajamento completo = sinal positivo para o algoritmo. Não importa o que estava dentro.

O Zuckerberg não tem chicote na mão — ele simplesmente construiu um sistema que recompensa o que é fácil de consumir, independente do que vale.

E aí vem a parte que dói: quatro horas de trabalho genuíno competindo em igualdade com um minuto de improviso não é uma plataforma de fotografia.

É uma plataforma de atenção que tolera fotografia.


O formato vertical é um manifesto político

Há um detalhe técnico que pouquíssimas pessoas param para analisar — e o Rafa apontou com precisão cirúrgica.

O sensor da câmera é horizontal. A esmagadora maioria das fotografias sérias — documentais, jornalísticas, paisagísticas, retratos com composição trabalhada — é produzida na horizontal. Porque é assim que o olho humano funciona em campo aberto. Porque é assim que a tradição fotográfica foi construída, de Cartier-Bresson a Sebastião Salgado.

O Instagram prioriza o formato vertical.

Isso não é uma preferência estética. É uma declaração sobre o que a plataforma considera relevante. Ela foi projetada para o smartphone na posição em que você o segura enquanto caminha — não para a câmera na posição em que um fotógrafo a usa quando está pensando.

99% das fotos de um fotógrafo experiente já nasceram erradas para o Instagram. E a solução que a plataforma oferece — cortar, rotacionar, adaptar — é uma forma elegante de dizer: suas fotos não cabem aqui do jeito que você as fez. Refaça-as para nós.

Isso não é uma parceria. É uma negociação com cláusulas ocultas.

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Você não tem nada

Aqui está a conversa que nenhum guru de Instagram vai ter com você.

Se amanhã o Instagram fechar — e plataformas fecham, o MySpace fechou, o Orkut fechou, e o Vine era amado — você perde tudo. Não só os seguidores: perde a capacidade de se comunicar com eles, perde o acesso, o histórico de relacionamento.

Perde a audiência que levou anos para construir. Porque ela nunca foi sua.

O Instagram não te dá e-mail, não te dá telefone, não te dá nada que transcenda a plataforma. Te dá visualizações — que são, na prática, uma janela na parede de uma casa que você não aluga: você mora na casa do Zuckerberg e ele decide quando acende a luz.

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A newsletter — o Substack, a lista própria, qualquer repositório de e-mails que você controla — é sua casa. Ninguém pode te despejar dela. Se você sair de uma plataforma, sua audiência vem com você. Se a plataforma sair, sua audiência continua lá.

Isso não é conceito novo. É o que o marketing direto faz desde os anos 80. A ironia é que uma geração inteira de fotógrafos que cresceu num mundo analógico — onde a propriedade da imagem era sagrada, onde o negativo era seu e de mais ninguém — entregou a própria audiência para uma empresa americana em troca de métricas que ela mesma controla.


O fotógrafo ainda está em 1980


Tem uma frase que disse na conversa com o Rafa e que vou repetir aqui, com o risco de incomodar quem merece ser incomodado: o fotógrafo ainda está em 1980.

Os criadores de imagem deveriam liderar a corrida nas redes sociais. São pessoas que treinaram o olho para capturar o que importa, que entendem composição, que sabem o peso de um instante. Deveriam ser os mestres do conteúdo visual.

Mas não são. Boa parte dos maiores criadores de conteúdo sobre fotografia no Instagram não são fotógrafos — são pessoas desinibidas com câmera na mão dando aula para fotógrafos. Enquanto isso, o profissional com 20 anos de experiência ainda depende de boca a boca, não coleta e-mail, não produz conteúdo com consistência, e quando produz, trata o algoritmo como inimigo — em vez de entender que o algoritmo é apenas um espelho medíocre do comportamento humano médio.

O problema não é o algoritmo. O algoritmo é uma consequência. O problema é que a maioria dos fotógrafos nunca se perguntou: o que eu quero construir, e quais ferramentas me ajudam a chegar lá?

Em vez disso, entrou no Instagram porque todo mundo entrou, ficou porque parecia errado sair e continuou porque desistir parecia derrota.


Dois algoritmos, uma ilusão

Outra coisa que o Cláudio não mencionou — e que eu mencionei na conversa com o Rafa — é que o Instagram não tem um algoritmo. Tem vários, operando em paralelo, com lógicas diferentes.

O algoritmo de Reels é construído para captação: ele pega você de fora, de quem ainda não te segue, e tenta fazer com que essa pessoa entre no seu perfil. É a porta de entrada.

O algoritmo de Carrosséis é construído para retenção: ele alimenta quem já te segue, mantém o relacionamento, aprofunda o vínculo. É o que faz a pessoa continuar lá dentro.

Stories é outro sistema. Busca é outro. Cada um com sua lógica, sua recompensa, sua demanda.

Para alimentar todos eles com consistência e qualidade — a recomendação genérica do Cláudio — você precisaria de uma equipe. Um roteirista, um editor de vídeo, um gestor de comunidade, um estrategista de conteúdo. Os criadores que faturam milhões no Instagram não são gênios: têm estrutura. Produzem 10 criativos por semana, medem qual performa, ajustam o que não funciona, escalam o que funciona. É um sistema industrial.

Um fotógrafo solo, fazendo isso tudo enquanto ainda precisa fotografar, editar, atender cliente e viver — está tentando competir num jogo para o qual não tem os recursos necessários.


TikTok: a filosofia que o Instagram teme

Na conversa com o Rafa, tocamos num ponto que ele achou revelador: a diferença filosófica entre TikTok e Instagram.

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Instagram opera como Social Graph — mostra conteúdo de quem você já segue, de quem você já conhece. É um sistema de relações.

TikTok opera como Interest Graph — mostra conteúdo baseado no que você demonstrou gostar, independentemente de quem fez. Com 10 seguidores, você pode viralizar amanhã se o conteúdo acertar o interesse certo.

Para fotógrafos que produzem conteúdo técnico e específico — tutoriais de filme, análise de equipamento, filosofia de imagem — o TikTok é potencialmente mais justo. O interesse em fotografia analógica é um nicho global. Se o conteúdo é bom, o algoritmo do TikTok encontra quem quer ver. No Instagram, você precisa primeiro construir a audiência para depois chegar nela.

O Rafa prometeu experimentar. A gente vai medir junto e gravar um episódio sobre isso.


A parceria que o mercado não viu vir

Renato Rocha Miranda, Obscura, e Rafa Lopes, Camera Clara: siga essas feras! :)

Antes de fechar, preciso falar sobre o que este podcast representa — porque é maior do que parece.

A Camera Clara é uma newsletter de fotografia em inglês. A Obscura é a maior newsletter de fotografia em português. Juntas, cobrem os dois maiores mercados fotográficos das Américas: Brasil e Estados Unidos. 280 milhões de falantes de português de um lado, 330 milhões de falantes de inglês do outro.

A ideia é simples e ousada: gravar em português, fazer autodub para inglês, distribuir nas duas plataformas simultaneamente. Não é tradução — é replicação de audiência. O mesmo conteúdo, o mesmo debate, dois mercados que raramente se falam.

Para marcas que querem atingir fotógrafos profissionais nas Américas, isso cria uma oportunidade de patrocínio que não existe em nenhum outro formato no momento: uma voz bilíngue, com autoridade editorial, cobrindo o hemisfério inteiro.

É o tipo de coisa que só funciona se for construída com calma e consistência — exatamente o oposto do que o Instagram pede.


O que fazer, então?

Não estou dizendo para você sair do Instagram, estou dizendo para você parar de morar lá!

Use o Instagram como vitrine, não como residência. Poste com inteligência — Reels para captação, Carrosséis para relacionamento — mas saiba que o objetivo de cada post não é a curtida. É levar a pessoa para onde você tem controle: seu site, sua newsletter, sua lista de e-mail.

Construa onde você é dono. Alugue onde o tráfego já está.

E, acima de tudo: pare de trabalhar para o algoritmo. O algoritmo trabalha para o Zuckerberg. Você precisa de uma estratégia que trabalhe para você.

O Cláudio deu a resposta tecnicamente correta. A Obscura, junto com o Rafa da Camera Clara, prefere dar a resposta verdadeira.

São coisas diferentes.


Renato Miranda é fotógrafo, jornalista e fundador da A Obscura, a maior newsletter de fotografia em língua portuguesa. Rafael Lopes publica a Camera Clara em cameraclara.com — vale assinar nos dois idiomas.


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