O Programa Que Devia Só Editar Vídeo Agora Ameaça Matar o Lightroom — e é Grátis
O DaVinci Resolve 21 acaba de entrar no território da Adobe com uma aba de edição de fotos completa, RAW, tethering e IA. E a Adobe? Silêncio.
Existe um padrão que a indústria criativa já viu antes — e que a Adobe parece incapaz de aprender.
Em 2010, a Blackmagic Design comprou o DaVinci Resolve e manteve o produto caro, restrito ao mercado de cinema. Em 2011, lançou uma versão gratuita. Hoje, o DaVinci Resolve é o editor de vídeo mais popular do planeta — e o Adobe Premiere perdeu fatia de mercado de forma consistente e irreversível nos últimos anos.
Agora, em abril de 2026, no NAB Show em Las Vegas, a Blackmagic fez o mesmo movimento — só que desta vez com o Lightroom e o Photoshop na mira.
O DaVinci Resolve 21 acaba de ganhar uma aba chamada Photo.
E muda tudo.
O que é o DaVinci Resolve 21 Photo Page — e por que é relevante
A Blackmagic Design anunciou o DaVinci Resolve 21 em beta na NAB 2026 com uma nova aba chamada Photo, projetada para importar, organizar e editar fotos diretamente no programa — incluindo arquivos RAW de Canon, Fujifilm, Nikon e Sony.
Mas a mudança não é só técnica. É filosófica.
Por anos, a Adobe controlou o pipeline fotográfico pela separação de funções: organizar no Lightroom, manipular no Photoshop, transitar entre os dois quando necessário. O DaVinci Resolve 21 desafia essa estrutura. A nova aba Photo traz importação de RAW, organização em catálogos e ferramentas avançadas de gradação no mesmo projeto onde o vídeo já existe.
Em outras palavras: foto, vídeo, color grading, efeitos visuais e áudio — tudo num único programa. Sem assinatura mensal. Sem Creative Cloud. Sem o famoso “você não compra o software, você aluga o direito de usar”.
O que a aba Photo entrega na prática
O coração da edição de fotos no Resolve é a mesma página de Color que coloristas de cinema usam há décadas. Não são sliders lineares como no Lightroom — é um workflow baseado em nós, onde cada ajuste é uma camada independente que pode ser aplicada em série, em paralelo, ou distribuída para um álbum inteiro de uma vez.
A nova aba Photo permite recortar e reencadrar imagens na resolução original sem afetar a qualidade do arquivo. As ferramentas de IA nativas do Resolve, incluindo AI Magic Mask, funcionam em arquivos de foto, permitindo seleções com um clique de objetos ou pessoas para edição localizada. Há ainda um novo recurso de AI UltraSharpen para aumentar a resolução de imagens de baixa qualidade.
Para fotógrafos profissionais, a página Color inclui controles de câmera que permitem conectar uma Sony ou Canon diretamente ao Resolve para captura ao vivo com ajustes de ISO, exposição e balanço de branco. É possível salvar presets de captura para fixar um look consistente antes que os clientes comecem a fotografar.
O LightBox — equivalente direto da grade de visualização do Lightroom — permite ver o álbum inteiro com as gradações aplicadas em tempo real. Álbuns podem ser organizados por dia de captação, modelo de câmera ou qualquer critério desejado. E sim: o app suporta importação de catálogos do Lightroom.
Ou seja: você não precisa abandonar o que já organizou. Você migra quando quiser.
Não é Lightroom dentro do Resolve. É melhor do que isso.
Seria fácil descrever a aba Photo como “Lightroom dentro do Resolve” — e isso perderia o ponto. O Lightroom é construído em torno de sliders e ajustes globais. O DaVinci Resolve é construído em torno de nós e fluxo de sinal. Essa diferença muda como as imagens são abordadas. Em vez de empilhar ajustes linearmente, você constrói um pipeline de gradação. Cada nó pode isolar, transformar e refinar aspectos específicos da imagem de forma controlada.
Para quem já usa o Resolve para vídeo, isso é território familiar. Para fotógrafos chegando pela primeira vez, é uma curva de aprendizado real — mas com um teto de potência que o Lightroom nunca vai alcançar.
A abordagem baseada em nós é diferente dos sliders do Lightroom, mas é indiscutivelmente mais flexível. Você pode empilhar ajustes em camadas e aplicá-los em múltiplas imagens simultaneamente.
O repórter da Engadget que testou a ferramenta resumiu bem: mais fácil de importar e organizar do que o Lightroom, tão poderoso quanto o Develop do Lightroom para a maioria dos ajustes — com a ressalva de que sentiu falta da ferramenta “Clarity”. O workflow baseado em nós é poderoso, e o Resolve facilita aplicar ajustes em múltiplas imagens de uma vez.
Quanto custa? Aí está o ponto.
O DaVinci Resolve tem duas versões:
Versão gratuita: inclui a aba Photo completa, importação RAW, LightBox, tethering básico, gradação por nós, exportação. Gratuita. Para sempre. Sem trial.
DaVinci Resolve Studio: versão paga por US$ 295 — pagamento único. Inclui ferramentas avançadas como AI Magic Mask, suporte multi-GPU, noise reduction avançado e Film Look Creator.
Compare com o que a Adobe cobra:
O pacote Photography da Adobe — apenas Lightroom + Photoshop — custa US$ 19,99 por mês, ou aproximadamente US$ 240 por ano. Para sempre. Todo ano. Até você cancelar e descobrir que precisa pagar multa de cancelamento antecipado — o que, aliás, levou a Adobe a enfrentar uma ação judicial do FTC e do Departamento de Justiça americano por práticas abusivas de assinatura.
Em menos de 15 meses de assinatura Adobe Photography, você paga o equivalente à licença vitalícia do Resolve Studio — que inclui não só a edição de fotos, mas o editor de vídeo mais usado do cinema mundial, uma DAW profissional (Fairlight) e uma ferramenta de VFX completa (Fusion).
A Estratégia DaVinci — você já viu esse filme
Se você leu o post da Obscura sobre o Affinity virar gratuito depois da compra pela Canva, vai reconhecer o roteiro ( leia no link abaixo).
O DaVinci Resolve inventou esse playbook. A Blackmagic aprendeu em 2011 que o preço era a barreira — e que derrubá-la era mais valioso do que qualquer receita direta. Quando o produto é tão bom que as pessoas dependem dele, a monetização vem por hardware, por versão Studio, por treinamento e por ecossistema.
A diferença agora é que o DaVinci Resolve 21 não está só competindo com o Premiere — está competindo com o Lightroom, o Photoshop, o Audition e parte do After Effects. Ao mesmo tempo. Num único programa. Grátis.
O DaVinci Resolve 21 representa a expansão mais ambiciosa do Resolve desde a integração original do Fusion e do Fairlight à plataforma. Enquanto o Resolve 20 apostou pesado em workflows de edição assistida por IA, a versão 21 toma uma direção estratégica fundamentalmente diferente — movendo-se além da pós-produção de vídeo e áudio por completo.
E a Adobe? Silêncio — com números.
Aqui é onde a narrativa fica complicada — porque a Adobe não está morta. Longe disso.
As ações da Adobe acumulam queda de aproximadamente 35% no último ano e de 44% em cinco anos, após atingir máximas históricas próximas de US$ 690 no final de 2021. A volatilidade recente é atribuída ao “pânico da IA” de 2024–2025, quando a ascensão de ferramentas de geração de texto para vídeo levou muitos a questionar a necessidade futura das ferramentas complexas da Adobe.
Mas os números operacionais contam outra história. A Adobe registrou receita de US$ 23,8 bilhões em 2025, crescimento de 11% ano a ano. O Firefly gerou 24 bilhões de assets até maio de 2025. Sete em cada dez empresas da Fortune 500 usam o Firefly.
O problema da Adobe não é financeiro. É de percepção e de ritmo.
O Firefly chegou com promessa de revolução. Virou notícia. Gerou expectativa. E então — para o fotógrafo profissional médio — se mostrou uma ferramenta de marketing corporativo mais do que uma ferramenta de fotografia real. A integração no Lightroom existe, mas é discreta. A integração no Photoshop existe, mas é complexa de usar bem. E o modelo de créditos generativos — onde você paga mais para gerar mais — criou uma fricção que a concorrência gratuita agora usa como argumento direto.
A promessa de produtividade infinita trazida pela inteligência artificial veio acompanhada de ruído, insegurança e uma sensação crescente de que as ferramentas estavam sendo pensadas mais para clientes e departamentos de marketing do que para quem vive da criação.
Enquanto isso, a Blackmagic lançou um programa que faz foto, vídeo, áudio e VFX — de graça — e anunciou isso num evento de televisão e cinema em Las Vegas.
A Adobe foi ao NAB 2026 também. Mas o assunto da semana não é ela.
O que isso significa para você como fotógrafo
Primeiro: ninguém está te obrigando a migrar amanhã. O Lightroom é uma ferramenta madura, com uma curva de aprendizado investida, plugins estabelecidos e integração com serviços como o Adobe Portfolio. Migrar tem custo real de tempo.
Segundo: o DaVinci Resolve 21 ainda está em beta. A aba Photo é nova. Haverá bugs, haverá features faltando, haverá comparações desfavoráveis em casos específicos. O próprio repórter que testou disse que sentiu falta do Clarity do Lightroom.
Terceiro — e mais importante: o movimento que aconteceu hoje no NAB 2026 é irreversível. A Blackmagic entrou no território de fotografia da Adobe e com ferramenta gratuita. Com qualidade de cinema. Com um modelo de negócio que não depende de te cobrar todo mês para você continuar tendo acesso ao seu próprio trabalho.
Isso não elimina a Adobe. Mas elimina a justificativa de que não existe alternativa profissional. E quando a justificativa some, a conversa muda.
Para fotógrafos que já usam o Resolve para editar vídeo dos seus ensaios e eventos, a aba Photo é imediata — você já tem o programa instalado, já conhece a interface, já entende os nós. O workflow criativo completo — da captura ao vídeo final — agora vive num único lugar.
Para quem ainda não tocou no Resolve: vale baixar a versão gratuita e passar uma tarde com a aba Photo. Não como substituição ainda. Como curiosidade informada. Como fotógrafo que entende que ferramenta não é dogma — é escolha.
A lição que o mercado não cansa de dar
Quando o Affinity virou gratuito, escrevi aqui na Obscura que o modelo de assinatura da Adobe estava com os dias contados para uma camada específica do mercado — o fotógrafo independente, o criador de conteúdo, o profissional que paga do próprio bolso e calcula ROI de ferramenta.
O DaVinci Resolve 21 confirma essa tese. E adiciona uma dimensão nova: não é só sobre preço. É sobre integração. Um único programa fazendo tudo — foto, vídeo, cor, áudio, efeitos — é uma proposta de valor que a Adobe nunca ofereceu porque seu modelo de negócio depende de você assinar múltiplos produtos.
A Blackmagic não tem esse problema. Ela vende câmeras e hardware. O software é o ecossistema que prende o fotógrafo e o videomaker. E quando o ecossistema é melhor e mais barato do que o concorrente — a math é simples.
Fique de olho. A aba Photo do DaVinci Resolve 21 está em beta hoje. Até o IBC em setembro, vai estar polida o suficiente para virar argumento sério de migração.
A Adobe tem esse tempo para responder, mas até agora, o silêncio tem sido a maior resposta.
Renato Rocha Miranda é fotógrafo, fundador da Obscura e passou 17 anos como fotógrafo na TV Globo antes de construir o maior ecossistema editorial de fotografia em língua portuguesa.









