Você realmente precisa de uma lente f/2.8 para fotografar paisagens?
A grande ironia de pagar o dobro do preço, carregar o dobro de peso e acabar fotografando em f/8.
Durante anos, a fotografia alimentou uma espécie de obsessão coletiva por lentes cada vez mais claras.
Basta passar alguns minutos em fóruns, grupos de fotografia ou canais especializados para encontrar recomendações insistindo que uma lente f/2.8 deveria ser o objetivo de qualquer fotógrafo sério. Muitas vezes, a mensagem transmitida é que lentes f/4 representam uma solução intermediária, um compromisso aceitável para quem ainda não chegou ao equipamento “ideal”.
Mas será que isso faz sentido para quem fotografa paisagens?
A resposta curta é: na maioria das vezes, não.
Isso não significa que lentes f/2.8 não sejam excelentes. Muito pelo contrário. Elas são ferramentas extraordinárias e possuem aplicações em que sua abertura maior faz uma diferença enorme. O problema é que muitos fotógrafos de paisagem acabam investindo em equipamentos maiores, mais pesados e mais caros para obter uma vantagem que raramente utilizam.
Antes de decidir se uma lente f/2.8 é realmente necessária, vale a pena fazer uma pergunta simples:
Em qual abertura você costuma fotografar suas paisagens?
A grande ironia da fotografia de paisagem
A principal vantagem de uma lente f/2.8 é simples: ela permite fotografar em uma abertura maior. Isso significa que ela deixa entrar mais luz e permite trabalhar com profundidade de campo reduzida quando desejado.
Mas a fotografia de paisagem possui uma particularidade interessante. Na maioria das situações, o fotógrafo não está tentando reduzir a profundidade de campo. Ele está tentando aumentá-la.
Existe ainda uma ironia adicional. Uma das principais razões pelas quais fotógrafos de retrato investem em lentes muito claras é a possibilidade de produzir profundidade de campo reduzida e desfocar o fundo. Na fotografia de paisagem, porém, normalmente buscamos exatamente o oposto. Passamos boa parte do tempo tentando manter o máximo possível da cena em foco.
O objetivo normalmente é manter nítidos tanto os elementos próximos quanto os mais distantes da cena. Para isso, fotógrafos de paisagem frequentemente trabalham em aberturas como f/8, f/11 e, ocasionalmente, f/16.
Ou seja, muitos fotógrafos compram uma lente capaz de fotografar em f/2.8 para utilizá-la quase sempre em f/8. Essa é uma das grandes ironias da fotografia de paisagem. A característica que torna a lente mais cara, maior e mais pesada muitas vezes não é utilizada na grande maioria dos casos em fotografia de paisagem.
Aberturas intermediárias são o habitat natural da fotografia de paisagem
Existe outro detalhe interessante.
Grande parte das lentes modernas apresenta seu melhor desempenho óptico justamente em aberturas intermediárias.
Embora isso varie de modelo para modelo, é comum que nitidez, contraste e desempenho nas bordas atinjam níveis excelentes em torno de f/5.6 a f/11.
Isso significa que, quando estamos fotografando uma paisagem em f/8, uma lente f/4 e uma lente f/2.8 frequentemente estão trabalhando em condições muito semelhantes. Naturalmente, existem diferenças entre projetos ópticos. Algumas lentes são mais nítidas que outras, independentemente da abertura máxima. Mas essas diferenças normalmente estão relacionadas à qualidade geral da lente e não ao fato de ela abrir em f/2.8 ou f/4.
Em outras palavras, a qualidade de uma fotografia de paisagem raramente será limitada pelo fato de uma lente ter abertura máxima de f/4.
E aqui, um exemplo pessoal. Durante muito tempo eu quis fotografar com uma Sigma 14-24, F/2.8 da linha Art. Até que chegou o dia em que adquiri uma e passei a utilizá-la como minha principal lente para paisagens. E permita-me ir direto ao ponto: que decepção. A lente não só era extremamente pesada, como tinha uma performance muito abaixo do que eu gostaria nas bordas, mesmo quando utilizada com aberturas menores. Não demorou muito até que eu passasse a lente adiante e fosse para outras soluções.
Menos peso significa mais fotografia
Quando a discussão acontece na internet, é comum que toda a atenção fique concentrada em números e especificações técnicas.
Na prática, porém, uma das maiores diferenças entre lentes f/2.8 e f/4 aparece muito antes do fotógrafo pressionar o disparador. Ela aparece na mochila. Lentes mais claras exigem elementos ópticos maiores. Isso normalmente resulta em equipamentos mais pesados e volumosos.
Talvez essa diferença pareça pequena quando observamos uma ficha técnica. Mas ela se torna muito mais evidente durante uma caminhada de algumas horas, uma subida até um mirante ou um dia inteiro explorando uma trilha.
Todo fotógrafo de paisagem já viveu situações em que precisou decidir o que levar e o que deixar para trás.
Nesses momentos, peso importa.
Uma lente mais leve facilita deslocamentos, reduz a fadiga e torna mais agradável passar longos períodos em campo. E essa não é uma diferença que deva ser ignorada, principalmente em trilhas longas. Se somarmos os pesos de câmeras, lentes, tripé, água, algum alimento, peça de roupa adicional, cada grama conta.
Pode parecer um detalhe secundário, mas existe uma realidade simples que vale a pena lembrar:
A lente que fica em casa não produz fotografia nenhuma.

O custo vai além da abertura
A diferença entre uma lente f/4 e uma lente f/2.8 raramente está restrita ao peso. Ela também aparece no preço. E não estamos falando apenas de alguns dólares. Dependendo do sistema e da distância focal, a diferença pode ser significativa, e isso levanta uma questão interessante.
Se duas lentes serão utilizadas praticamente da mesma forma no campo, faz sentido investir consideravelmente mais apenas pela abertura máxima?
Para alguns fotógrafos, a resposta será sim. Para outros, talvez não.
O ponto importante é compreender que essa decisão deve ser baseada no uso real do equipamento e não apenas na ideia de que uma lente mais clara é automaticamente melhor.
O desafio dos filtros
Existe ainda uma questão pouco discutida fora dos círculos de fotografia de paisagem.
Muitas lentes ultra grande-angulares f/2.8 utilizam elementos frontais grandes e extremamente convexos.
Do ponto de vista óptico, isso pode trazer vantagens. Porém, existe uma consequência prática: o uso de filtros torna-se mais complicado. Em alguns casos, filtros convencionais simplesmente não podem ser utilizados.
O fotógrafo passa a depender de sistemas específicos, normalmente maiores, mais pesados e mais caros.
Para quem utiliza filtros polarizadores, filtros de densidade neutra ou filtros graduados (estes, caindo em desuso nos últimos anos) com frequência, essa diferença pode influenciar bastante a experiência de uso.
Já muitas lentes f/4 conseguem manter elementos frontais mais discretos, facilitando a utilização de acessórios e reduzindo o custo do sistema como um todo.
Uma lente f/4 não é uma lente “inferior”
Talvez um dos maiores equívocos desse debate seja a ideia de que uma lente f/4 representa uma versão simplificada de uma lente f/2.8. Em alguns casos, isso pode até ser verdade.
Em muitos outros, não.
Diversas lentes f/4 modernas foram projetadas especificamente para oferecer um equilíbrio entre desempenho óptico, tamanho, peso e praticidade. Como o projeto não precisa priorizar uma abertura extremamente ampla, os engenheiros ganham liberdade para otimizar outros aspectos.
O resultado pode ser uma lente excepcionalmente nítida, compacta, resistente a flare e muito agradável de utilizar em campo. Em outras palavras, uma lente f/4 não deve ser vista como uma escolha inferior. Ela é simplesmente uma ferramenta diferente, com prioridades diferentes.
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Quando a abertura realmente importa
Até este ponto, pode parecer que estou argumentando contra lentes f/2.8. Não é o caso.
Existem situações em que a abertura maior faz uma diferença enorme. A questão é que muitas delas não estão relacionadas à fotografia de paisagem diurna. Fotógrafos de eventos frequentemente precisam trabalhar em ambientes escuros. Fotógrafos esportivos dependem de velocidades altas para congelar a ação. Retratistas utilizam profundidade de campo reduzida como ferramenta criativa.
Nesses contextos, uma lente f/2.8 pode ser absolutamente indispensável.
O importante é reconhecer que as necessidades da fotografia de paisagem costumam ser diferentes. Mas há uma exceção a essa regra.
A exceção que confirma a regra
Se existe uma área da fotografia de paisagem em que uma lente f/2.8 (ou de abertura maior) continua sendo extremamente valiosa, essa área é a fotografia noturna.
Astrofotografia, imagens da Via Láctea, auroras e paisagens sob o céu estrelado representam um cenário completamente diferente. Quando fotografamos estrelas, estamos trabalhando com quantidades muito limitadas de luz.
Além disso, não podemos simplesmente aumentar indefinidamente o tempo de exposição. Conforme a exposição se prolonga, o movimento aparente da Terra começa a transformar estrelas em rastros luminosos.
Nesse contexto, cada ponto de luz conta.
A diferença entre f/2.8 e f/4 representa o dobro da luz capturada.
E isso é significativo. Uma lente mais clara pode permitir utilizar um ISO menor, preservar mais detalhes e produzir arquivos de melhor qualidade.
Por esse motivo, fotógrafos que dedicam uma parte importante do seu trabalho à astrofotografia frequentemente têm excelentes razões para investir em lentes mais luminosas.
Talvez essa seja a única área da fotografia de paisagem em que a vantagem de uma lente f/2.8 seja verdadeiramente difícil de substituir.
O equipamento certo é aquele que atende às suas necessidades
A fotografia está cheia de “recomendações absolutas”. Com frequência ouvimos que determinado equipamento é obrigatório ou que uma característica específica é indispensável para produzir boas imagens.
A realidade costuma ser mais complexa.
Lentes claras são ferramentas extraordinárias. Eu gosto delas e as utilizo regularmente.
Para a maioria dos fotógrafos de paisagem, uma boa lente f/4 oferece qualidade de imagem excepcional, menor peso, menor custo e maior praticidade, sem comprometer o resultado final.
Antes de investir em uma lente mais clara, talvez valha a pena fazer uma pergunta simples:
Quantas das suas melhores paisagens foram realmente fotografadas em f/2.8?
A resposta provavelmente será muito próxima de zero. E isso não é um problema. É apenas a natureza da fotografia de paisagem.
No fim das contas, a melhor lente não é necessariamente aquela com a maior abertura disponível. É aquela que atende às suas necessidades, acompanha você até o local da fotografia e estará pronta quando a luz perfeita finalmente aparecer.
Este texto é uma contribuição de Luciano Stabel, fotógrafo de vida selvagem e natureza radicado no Canadá. Luciano é ex-aluno e novo colaborador de A Obscura, trazendo para a newsletter o olhar de quem fotografa vida selvagem e paisagens canadenses. A Obscura tem orgulho de ter a sua voz.













Minha lente mais usada, que fica direto na OM-1 (eu uso Micro 4/3) é a 12-100 Pro f/4. Quase não sai mais da câmera; as outras lentes, zooms e primes, estão coletando poeira…
Obrigado!!! Agora a nova pressão é para ir para lentes f1,4. hehehe