Existe um momento revelador quando duas empresas concorrentes, do mesmo país, do mesmo setor, enfrentando exatamente as mesmas condições macroeconômicas, apresentam resultados financeiros diametralmente opostos. É nesse contraste que a verdade aparece nua e crua: não é o mercado que define o sucesso. É a estratégia.
A Nikon e a Fujifilm acabaram de publicar seus resultados financeiros do terceiro trimestre do ano fiscal de 2025. Ambas citam tarifas americanas, taxas de câmbio desfavoráveis e um mercado competitivo como desafios. Mas enquanto uma sangra milhões em prejuízo, a outra bate recordes históricos de receita e lucro.
Vamos aos números:
A Nikon em Queda Livre
A Nikon reportou um prejuízo operacional de 103,6 bilhões de ienes — quase US$ 660 milhões — nos primeiros três trimestres do ano fiscal. Só no terceiro trimestre, o prejuízo operacional foi de 98,8 bilhões de ienes (US$ 629 milhões).
Sim, parte desse rombo vem de perdas cambiais e baixas contábeis de ativos. Mas o problema vai além: a divisão de produtos de imagem, que representa quase 50% da receita total da empresa, também está em apuros. A receita caiu, o lucro operacional ficou 11 bilhões de ienes (US$ 70 milhões) abaixo das expectativas — uma queda de quase 35% em relação às projeções do ano passado.
Mas aqui está o mais chocante: em novembro de 2024, apenas três meses atrás, a Nikon reportou crescimento saudável de 14,1% em receita e 3,6% em lucro operacional na divisão de imagem. A empresa havia vendido 410 mil câmeras no semestre e estava otimista. Fast forward para fevereiro de 2026: prejuízo de $660 milhões, projeções cortadas, executivos sem bônus. Não foi uma agonia lenta.
Foi uma queda livre.
E isso é ainda mais assustador do que uma crise prolongada — mostra o quão vulnerável a estratégia da Nikon se tornou quando o vento virou.
E o mais assustador? Desde 2022, as vendas de câmeras da Nikon estão completamente estagnadas. A empresa reduziu suas projeções de 950 mil para 900 mil câmeras vendidas este ano, e de 1,4 milhão para 1,3 milhão de lentes.

A Nikon lançou produtos excelentes recentemente: a Z5 II, a Z50 II, a câmera de cinema ZR. Mas não cresceu. E quando você não cresce num mercado onde outras empresas estão explodindo, o problema não é externo.
A cereja do bolo? O CEO e o presidente da empresa abriram mão dos bônus e compensações em ações. Quando a alta liderança renuncia à própria remuneração, você sabe que o buraco é fundo.
A Fujifilm em Festa
Do outro lado da rua, a Fujifilm está comemorando.
Receita recorde. Lucro recorde. Crescimento de 4,4% na receita geral e 14,6% na divisão de imagem em relação ao ano anterior. O lucro operacional da divisão de imagem subiu 12,9%, alcançando 55,1 bilhões de ienes (US$ 351 milhões).
E tem mais: a empresa projeta que o quarto trimestre continuará essa trajetória ascendente, marcando o 16º ano consecutivo de aumento de dividendos.
O que a Fujifilm fez de diferente?
Primeiro: diversificação inteligente. Enquanto a Nikon deposita metade de suas fichas em câmeras mirrorless de alta performance para entusiastas e profissionais — um mercado que, embora estável, é limitado —, a Fujifilm investiu pesado na Instax.
Sim, aquelas câmeras instantâneas que você vê nas mãos de adolescentes no TikTok e em festas. A linha Instax acaba de ultrapassar 100 milhões de unidades vendidas cumulativamente. E a empresa está tão confiante no produto que vai investir US$ 32 milhões para aumentar a produção em 10%.
A Instax mini 12, mini Evo, Wide 400 e a recém-lançada mini Evo Cinema (que agora grava vídeo) estão vendendo como água. É um produto acessível, divertido, nostálgico e perfeitamente alinhado com o comportamento de uma geração que valoriza experiências tangíveis num mundo digital.
Segundo: não abandonou o profissional. A Fujifilm continua lançando câmeras e lentes de alta performance que vendem bem. A GFX100 RF, X-M5, X-E5 e X-T30 III foram citadas como produtos de “vendas fortes”. Ou seja: a empresa consegue surfar em dois mercados simultaneamente — o de massa e o premium.
Mesmas Desculpas, Estratégias Diferentes
Ambas as empresas citam as mesmas dificuldades externas: tarifas americanas, câmbio desfavorável, competição acirrada. Mas uma está crescendo e a outra está afundando.
A Nikon culpa “declínio no preço médio de venda devido a mudanças no mix de produtos” e “maiores despesas de promoção em meio ao ambiente competitivo intensificado”. Traduzindo: estamos tendo que baixar preços e gastar mais em marketing para tentar competir — e ainda assim não estamos crescendo.
A Fujifilm, enfrentando o mesmo ambiente competitivo, está crescendo. Por quê? Porque encontrou mercados onde pode dominar (Instax), manteve relevância no segmento profissional (X e GFX) e diversificou o risco.
A Nikon, por outro lado, continua dependente demais de um único segmento que está estagnado. E quando você coloca 50% da sua receita num mercado que não cresce, você não tem margem de erro.
O Que Isso Significa para Você
Se você é fotógrafo ou videomaker que usa Nikon, não precisa entrar em pânico. A empresa não vai desaparecer amanhã. Mas esses números são um sinal amarelo piscando.
Empresas em crise financeira tendem a cortar investimento em P&D, atrasar lançamentos, reduzir suporte ao cliente e, eventualmente, aumentar preços para tentar recuperar margens. Já vimos esse filme antes com outras marcas.
Se você está pensando em investir num sistema de câmeras novo, esses dados importam. Ecossistema de lentes, atualizações de firmware, longevidade do suporte — tudo isso depende da saúde financeira da empresa.
E se você é da Fujifilm? Bem, aproveite. Você está num barco que não só está flutuando, como está acelerando enquanto outros afundam.
Conclusão: Estratégia Vence Desculpas

O mercado de câmeras está difícil? Sim. Tarifas estão pesando? Sim. Câmbio está desfavorável? Sim. Mas a Fujifilm está crescendo apesar disso tudo. E a Nikon está afundando por causa disso tudo.
A diferença não está nas condições externas. Está nas escolhas estratégicas internas.
E essa é a lição que vale para qualquer negócio, qualquer mercado, qualquer momento: quando todo mundo enfrenta o mesmo vento contrário, quem navega melhor é quem tem a vela ajustada corretamente.
A Nikon precisa urgentemente ajustar a vela. Porque o vento não vai mudar tão cedo.
E você, usa Nikon ou Fujifilm? Comenta aqui embaixo e me conta o que achou dessa análise.















