Você já ouviu falar de Robert Capa. Provavelmente conhece O Soldado Caído — aquela imagem de um miliciano espanhol no exato momento em que é atingido, a foto mais famosa da Guerra Civil Espanhola e uma das mais icônicas de toda a história do fotojornalismo. Você sabe o nome do fotógrafo.
Mas existe uma boa chance de que você nunca tenha ouvido falar de Gerda Taro.
E esse esquecimento não é acidente. É o resultado de décadas de uma história contada pela metade.
Escrevi sobre Capa recentemente, incluí um livro sensacional que narra a história dos dois na Guerra Civil Espanhola, vale a leitura, clique abaixo:
Paris, 1934. O começo de tudo.
Gerta Pohorylle havia chegado a Paris como refugiada. Filha de judeus de classe média, cresceu em Stuttgart, na Alemanha, e foi presa em 1933 por distribuir propaganda antinazista nas ruas. Com a ascensão de Hitler ao poder, a família se dispersou. Ela foi para Paris com quase nada.
Na Cidade Luz, conheceu dois jovens fotógrafos igualmente deslocados: David Seymour e André Ernö Friedmann, um húngaro sem dinheiro, com francês péssimo e uma câmera. Os dois se apaixonaram. E juntos, arquitetaram um plano.
No começo, “Robert Capa” era o nome sob o qual Friedmann, Gerda e Seymour assinavam suas fotos. Normalmente, Friedmann tirava as fotos, Gerda as vendia e quem recebia o crédito era o imaginário Capa.
A lógica era simples e brutal: nomes judeus e estrangeiros não vendiam. Nomes americanos, sim. Ao adotarem as novas identidades, Capa conseguiu vender suas fotos por até três vezes mais do que recebia antes, iniciando sua fama como o maior fotógrafo de guerra do século XX.
Capa fotografava, Gerda, com seu ar desenvolto e um francês sem sotaque, vendia as fotos nas agências. André Friedmann havia desaparecido.
Ela não era a assistente. Ela era a arquiteta do mito.
A fotógrafa que ninguém via
Com o tempo, Gerda começou a fotografar também. E fotografava bem — com um estilo próprio, enquadramentos distintos, uma câmera Rollei que produzia imagens quadradas enquanto Capa usava sua Leica retangular. Ela começou a comercializar suas fotos sob o nome de Photo Taro para várias revistas de peso, como a Life e a Volks-Illustrierte.
Em 1936, com o início da Guerra Civil Espanhola, os dois foram enviados para Barcelona. Gerda era a única mulher fotojornalista a cobrir o conflito. Fotografava soldados, civis, trincheiras, o cotidiano da guerra — de perto, sem distância segura. Os três procuravam sempre estar perto da ação, munidos com câmeras de 35mm de fácil transporte. Tomaram posições políticas que reverberaram em seus trabalhos, reconhecendo-se na condição de imigrantes judeus contra o ditador espanhol Francisco Franco.
E aqui está o detalhe que a história oficial preferiu ignorar durante décadas: há suspeitas até hoje de que muitas das fotos da Guerra Civil Espanhola creditadas a “Robert Capa” tenham sido tiradas por Gerda Taro. Até 1937, quase todas as fotografias de Gerda eram publicadas sem crédito — ou creditadas ao nome fictício que ela própria havia ajudado a criar.
Brunete. 26 de julho de 1937.
Em julho de 1937, Gerda Taro e o jornalista Ted Allan estavam juntos na cobertura da Batalha de Brunete. A fotógrafa trabalhava registrando o Segundo Congresso Internacional de Escritores para Defesa da Cultura, na cidade de Madrid, quando se deslocou para a frente de batalha, contrariando a proibição do jornal, que alegava grande perigo.
Um general polonês que combatia ao lado dos republicanos, ao vê-la, ordenou que abandonasse o local imediatamente. Ela desobedeceu.
Um tanque desgovernado do exército republicano colidiu com o carro em que ela estava sendo transportada. Gerda foi mortalmente ferida no estômago.
Ela morreu no dia seguinte. Tinha 26 anos. Era a primeira fotojornalista mulher a morrer em combate. Capa soube da notícia lendo o jornal no dentista e nunca se recuperou do trauma.
Seu corpo foi levado para Paris. O funeral atraiu milhares de pessoas. Ela se tornou mártir da causa antifascista, símbolo do fotojornalismo revolucionário — e, gradualmente, foi sendo reduzida a uma nota de rodapé na biografia de Robert Capa.






A Maleta Mexicana
Por décadas, grande parte do trabalho fotográfico da Guerra Civil Espanhola ficou perdida. Antes de partir de Paris, com medo de ser enviado a um campo de concentração por sua origem judaica, André Friedmann — o homem que o mundo passou a conhecer como Robert Capa — entregou cerca de 4.500 negativos para um conhecido, pedindo que os enviasse para os Estados Unidos.
Os negativos desapareceram. Viraram lenda.
Em 2007, a “Maleta Mexicana” foi reapresentada pelo International Center of Photography, em Nova York. Entre os episódios revelados, descobriu-se que muitas das imagens atribuídas a Robert Capa durante a Guerra da Espanha eram, na verdade, de Gerda Taro.
Setenta anos depois da morte dela. Setenta anos para que o crédito começasse, finalmente, a ser acertado.
O que a fotografia não contou
A história do fotojornalismo de guerra é contada, em grande parte, através de um nome: Robert Capa. O húngaro corajoso, o romântico irredutível, o homem que disse que “se suas fotos não são boas o suficiente, você não estava perto o suficiente.”
Mas essa frase, esse mito, essa identidade — tudo isso foi construído em parceria. Gerda Taro não era a acompanhante de Robert Capa. Era a metade de Robert Capa.
Ela criou o personagem. Ela vendeu as fotos. Ela foi para a frente de batalha quando a maioria recuava. E ela morreu fazendo o trabalho que amava — enquanto o nome que ela ajudou a inventar continuava crescendo sem ela.
Existe um paradoxo cruel na história de Gerda Taro: ao criar Robert Capa, ela garantiu que o trabalho chegaria ao mundo — mas também garantiu que seu próprio nome ficaria invisível por décadas.
Hoje, oitenta e oito anos depois, a fotografia começa a acertar essa conta.
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